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Agachamento e Lesões nos Joelhos

Como vimos na matéria anterior sobre Agachamento e Dor Lombar, ao contrário do que se acreditava, o Agachamento em maiores amplitudes causa menores escores de dor lombar quando comparado em menores amplitudes. Porém e em relação ao joelho? Existe alguma relação entre a profundidade do Agachamento e lesões nos joelhos? Muitos profissionais da saúde ainda dizem que – “Não se deve agachar mais que 90º devido as lesões que ocorrem nos ligamentos e tendões a partir desse ponto”. Mas será essa afirmação verdadeira?

Ao ver um atleta realizando agachamentos com muita carga e em grande profundidade, a primeira coisa que vem a mente das pessoas é que daqui alguns anos esses atletas estarão com doenças degenerativas nos joelhos. Pois bem, em um estudo de 1980, publicado na Revista Britânica de Medicina Esportiva, os autores avaliaram 25 atletas de elite do Levantamento de Pesos para identificar casos de Osteoartrite (1). No entanto seus achados demonstraram que apenas um indivíduo apresentara grau moderadamente severo de degeneração em ambos os joelhos, sendo este indivíduo o mais velho da amostra.

O outro indivíduo que também demonstrou o quadro, possuía degeneração em apenas um dos joelhos, porém este já vinha de processo cirúrgico anterior devido uma lesão causada durante uma partida de Futebol Americano, sendo também este atleta um dos atuais campeões olímpicos da época. Os autores concluem que apesar disso, os achados não são substancialmente diferentes comparados à mesma faixa etária na população em geral.

Amplitude do Agachamento e Estresse Articular

O que se acredita é que com a maior amplitude de movimento ocorra maior estresse na articulação, devido as forças externas que atuam sobre ela. Porém a medida que se aumenta a amplitude de movimento no agachamento não ocorre maior aumento dessas forças quando comparados à agachamentos em menores amplitudes (2,3)

Os autores Salem e Powers (4), procuraram avaliar os efeitos do agachamento em diferentes amplitudes de movimento sendo, 70, 90 e 110 graus, em relação a quantificação de estresse na articulação patelofemoral. Os resultados demonstraram que nas três condições o estresse na articulação foi similar, sugerindo que não há risco aumentado quando realizando agachamentos com maior amplitude de flexão do joelho.

Apesar disso, tem sido mostrado que a compressão tibiofemoral e patelofemoral é maior com o aumento da flexão do joelho quando esta é menor que 90 graus (5–7). O mais alto valor de força compressiva na articulação patelofemoral ocorre próximo a 90 graus e então começa a reduzir devido ao chamado “efeito de embrulho”(8).

Redução das forças de compressão e cisalhamento

Com o aumento da flexão, o contato adicional entre o tendão do quadríceps e o entalhe intercondilar* contribui para uma melhorada distribuição de carga e transferência de força (9). Esse efeito tem mostrado reduzir a força compressiva na articulação patelofemoral por aproximadamente 5% entre 90 a 120 graus de flexão do joelho (10). Ou seja, o aumento da amplitude no Agachamento reduz a compressão na articulação do joelho, mostrando que até mesmo o Meio-Agachamento (90 graus) produz maior aumento da compressão do que em agachamentos com maiores amplitudes (Paralelo e/ou Profundo).

Os isquiotibiais, formados por bíceps femoral, semitendinoso e semimembranoso, são tecnicamente antagonistas do quadríceps, sendo opositores dos momentos de extensão do joelho. Em exercícios de cadeia fechada, eles comportam-se de forma contraditória e agem na co-contração com o quadríceps. Essa ação sinérgica tem importante implicação para melhorar a integridade do joelho no desempenho de agachamentos (7).  Especificamente, os músculos isquiotibiais exercem uma tração contra-reguladora na tíbia, ajudando a neutralizar o cisalhamento tibiofemoral anterior transmitido pelo quadríceps, assim ajudando a aliviar o estresse no ligamento cruzado anterior (LCA) (11).

Outro fator que pode ser citado aqui é a o contato da coxa com panturrilha, que ocorre quando se realiza um agachamento mais profundo. Foi demonstrado que, quando ocorre este contato, existe uma diminuição das forças de compressão e cisalhamento na articulação do joelho (12). Os autores reforçam que ao se avaliar essas forças, não se deve negligenciar o efeito gerado por este contato da coxa com a panturrilha.

Conclusão

Com isso, pode-se ver que as crenças populares relacionadas à amplitude de agachamento e lesões nos joelhos na verdade são falácias. Não existem evidências fidedignas que apontem que para pessoas com joelhos saudáveis, realizar agachamentos profundos, seja prejudicial. É importante levar em conta que não se deve extrapolar estes dados, pois podem não ser aplicáveis a pessoas que possuem degeneração nas cartilagens dos joelhos, ou outros tipos de doenças relacionadas à articulação.

Referências

1.          Fitzgerald B, McLatchie GR. Degenerative Joint Disease in Weightlifters: Fact or Fiction? Br J Sports Med. 1980;14(August):97–101.

2.          Flores V, Becker J, Burkhardt E, Cotter J. Knee Kinetics during Squats of Varying Loads and Depths in Recreationally Trained Females. J Strength Cond Res. 2018;1.

3.          Cotter JA, Chaudhari AM, Jamison ST, Devor ST. Knee Joint Kinects in Relation to Commonly Prescribed Squat Loads and Depths. Vol. 27, Journal of Strenght and Conditioning Research. 2013. p. 1765–74.

4.          Salem GJ, Powers CM. Patellofemoral joint kinetics during squatting in collegiate women athletes. Clin Biomech. 2001;16(5):424–30.

5.          Nagura T, Dyrby CO, Alexander EJ, Andriacchi TP. Mechanical loads at the knee joint during deep flexion. J Orthop Res. 2002;20:881–6.

6.          Gullett JC, Tillman MD, Gutierrez GM, Chow JW. A Biomechanical Comparison of Back and Front Squats in Healthy Trained Individuals. J Strength Cond Res. 2009;23(1):284–92.

7.          Schoenfeld BJ. Squatting kinematics and kinetis and their application to exercise performance. J Strength Cond Res. 2010;24(12):3497–506.

8.          Nisell R, Németh G, Ohlsén H. Joint forces in extension of the knee: Analysis of a mechanical model. Acta Orthop. 1986;57(1):41–6.

9.          Hartmann H, Wirth K, Klusemann M. Analysis of the load on the knee joint and vertebral column with changes in squatting depth and weight load. Sport Med. 2013;43(10):993–1008.

10.       Kernozek TW, Gheidi N, Zellmer M, Hove J, Heinert BL, Torry MR. Effects of Anterior Knee Displacement during Squatting on Patellofemoral Joint Stress. J Sport Rehabil. 2018;27(3):237–43.

11.       Escamilla RF. Knee biomechanics of the dynamic squat exercise. Med Sci Sports Exerc. 2001;33(1):127–41.

12.       Zelle J, Barink M, Loeffen R, De Waal Malefijt M, Verdonschot N. Thigh-calf contact force measurements in deep knee flexion. Clin Biomech. 2007;22(7):821–6.

Gustavo Api

Gustavo Api

Licenciado e Bacharel em Educação Física pela Universidade Positivo. Especialista em Treinamento Desportivo pela Universidade Paulista. Especialista em Esporte de Alto Rendimento pelo Instituto Olímpico Brasileiro - Comitê Olímpico do Brasil. Atuando desde 2010 na área de Esporte e Fitness, atualmente como Preparador Físico no Santa Mônica Clube de Campo, atuou como treinador de Levantamento de Peso, aonde também participou como atleta amador de diversas competições a nível estadual. Seus temas preferidos são Treinamento de Força, Periodização e Monitoramento de Cargas no Esporte. Buscando sempre mais conhecimento, aprender nunca é demais.

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