Estruturando o treinamento para otimizar a aprendizagem

Fala galera! Na matéria de hoje a gente vai fazer uma visão geral do capítulo “Estruturando o treinamento para otimizar a aprendizagem” do livro “Dinâmicas na aquisição de habilidades: Um abordagem baseada nos restritores da tarefa”(Davids, Button, & Bennet, 2008). Que é um livro que traz uma abordagem muito atual sobre o treinamento visando a aquisição ou manutenção de habilidades esportivas. Seria interessante que você compreendesse os princípios da teoria dos sistemas dinâmicos pra melhor entender essa matéria (CLIQUE AQUI).

Introdução

Nesse capítulo os autores abordam estratégias para otimizar a aprendizagem de habilidades motoras. As estratégias são relacionadas aos componentes do treinamento que podem ser ajustados e consequentemente potencializando a aprendizagem, fornecendo ao praticamente exercícios ótimos que visam estimular a busca por soluções motoras ao invés de apenas repetir movimentos. Adicionalmente, no capítulo são abordados os seguintes componentes: a restrição de tempo treinando, a manipulação das atividades (adaptando regras, mudando dimensões e modificando equipamentos) e estratégias para estruturação da prática (interferência contextual e prática parcial).

A restrição de tempo treinando

É de conhecimento comum que para alcançar uma excelente performance esportiva, são necessários anos de treinamento. Ou seja, há uma relação positiva entre tempo de treino e performance. Porém, a prática deve ser deliberadamente com intuito de melhorar a performance, e mais ainda específico, melhorar componentes específicos da tarefa, ou seja, apenas “jogar” ou simplesmente executar uma tarefa não potencializa a aprendizagem, principalmente para indivíduos que são considerados experientes/avançados.

A manipulação das atividades

Entre os componentes importante para aprendizagem podemos citar a retenção e transferência. Retenção é o a capacidade de manter uma habilidade aprendida ao longo do tempo. E transferência é a capacidade de transferir uma habilidade aprendida em um contexto (Por exemplo treino) para um outro contexto (por exemplo competição). Esses dois componentes serão usados como critérios para a aplicação das estratégias seguintes. Dentre as atividades para potencializar a retenção e transferências algumas adaptações na modalidade podem ser aplicadas, como: Adaptar as regras; adaptar as dimensões, e adaptar os equipamentos.

1-Adaptando regras

Todos os esportes têm regras que moldam as ações os atletas. Os treinadores podem criar ou adaptar pequenas regras, fazendo com que os atletas se ajustem e desenvolvam novos padrões motores. Essas regras devem ser coerentes e realistas, proporcionando que o atleta consiga desenvolver soluções motoras na modalidade específica. Um exemplo que é muito conhecido é limitar o número máximo de toques na bola no futebol ou futsal. Então o treinador inclui uma regra onde cada jogador pode dar no máximo dois toques na bola. Essa regra irá fazer com que os jogadores tomem rápidas decisões quanto ao que fazer com o número limitado de toques, assim como vai estimular os jogadores que estão sem bola, a deslocarem para receber um passe mais rapidamente. Essas adaptações podem ser feitas em praticamente todos os esportes e fundamentos.

2-Adaptando as dimensões

Alterar o tamanho da quadra, ou espaço em que o esporte é realizado é um dos meios muito eficientes de otimizar o treinamento, fazendo com que o atleta busque responda a esse ambiente de maneira otimizada. Ou seja, aumentar ou diminuir a quadra faz com que os jogadores se ajustem a essas demandas no esporte. Por exemplo em esportes de raquete como tênis e badminton, a quadra pode ser reduzida para que o jogador aumente sua precisão. No futebol o campo pode ser reduzido fazendo que o jogador manipule a bola mais perto do corpo. A quadra no voleibol pode ser dividida para estimular mais movimentos para a diagonal, paralela ou largadas (figura abaixo).

3-Adaptando os equipamentos

A maioria dos esportes usa algum equipamento como, bolas ou raquetes. A manipulação desses objetos pode favorecer a aprendizagem. Por exemplo, para crianças aprendendo voleibol, uma bola menor e mais lenta favorece a aprendizagem, assim como uma raquete menor para iniciantes no tênis. Mas as adaptações de equipamentos também podem ser usadas com adultos, por exemplo a utilização de raquetes um pouco mais pesadas, fazendo com que o jogador aplique mais força. Ou no futebol, utilizar uma bola menor para aumento da precisão no domínio de bola entre outros

Estratégias para estruturação da prática

A estruturação da prática tem relação de como as tarefas são organizadas dentro da sessão de treino e como os exercícios são realizados. Nessa linha, dois componentes são importantes, a interferência contextual e a prática parcial

1-Interferência contextual

Interferência contextual tem relação com a ordem que os exercícios são executados na sessão de treinamento. Um treino com baixa interferência contextual executa as habilidades em blocos, por exemplo 10 minutes treinando chute, 10 minutos treinando passe e 10 minutos treinando domínio. Enquanto um treino com alta interferência contextual executa as ações de maneira aleatória, por exemplo treinando por 30 minutos chutes, passes e domínios, onde a ordem das habilidades executadas é aleatória. A prática aleatória é muito mais eficiente, pois o cérebro tem que trabalhar mais arduamente para reconstruir as sinapses nervosas em relação a tarefa.

Quando os exercícios são em bloco, o cérebro não precisa reconstruir esses caminhos pois ele está constantemente sendo estimulado. O que faz com que ocorra uma ilusão de aprendizagem, onde em estudos que os praticantes usaram prática em bloco obtiverem melhor desempenho logo após a prática. Porém, em testes de retenção, algum tempo após a prática os praticantes no grupo aleatório tiverem melhore resultados. Ou seja, o treino em bloco parece favorecer a performance no treino, porém isso não transfere para o jogo. Para finalizar, o treino em bloco pode ser usado para iniciantes, porém, assim que eles entenderem o básico da habilidade, é recomendado uma transição para o treino aleatório.

2- Prática parcial

É muito comum na prática diminuir a complexidade de tarefas por fragmentação das habilidades, principalmente para iniciantes. Por exemplo um nadador pode treinar apenas a pernada enquanto segura uma “pranchinha.” Porém, a fragmentação de atividades pode ser prejudicial por violar a interação entre a percepção de informações (por exemplo a trajetória de uma bola) e a ação (rebater uma bola). Ou seja, percepção e ação andam juntos, apenas uma ação sem a percepção da informação no ambiente, não irá ser otimizado para uma situação real como no ambiente dinâmico do esporte. Uma estratégia eficiente para tarefas complexas é a simplificação.

A simplificação mantém as condições naturais de desempenho, mas simplifica alguns componentes como velocidade dos objetos e pessoas, distância entre as superfícies e objetos e forças de objetos móveis. Como exemplos: Rolar a bola mais lentamente para um iniciante realizar um chute no futsal; diminuir a altura da rede para iniciantes no voleibol conseguirem atacar; realizar um golpe de judô mais lentamente;

Considerações Finais

As informações abordadas aqui nessa matéria, são o básico para prescrever uma boa sessão de treinamento. Muitas das vezes, os treinadores na esperança de acelerar a aprendizagem acabam incluído métodos que podem na verdade atrasar o processo de aprendizagem. Nós do SciTraining, baseado na ciência, acreditamos que o treino deve ser específico, replicando as situações que acontecem na modalidade, de uma maneira que as repetições sejam potencializadas e os estímulos otimizados. Métodos que mudam o movimento, ou tiram as informações básicas do ambiente devem ser usados em casos específicos e em geral por curto período. Ou seja, o técnico deve ter a criatividade para adaptar atividades que utilizem esses conceitos para potencializar a aprendizagem.

Referências

Davids, K., Button, C., & Bennet, S. (2008). Dynamics of Skill Acquisition: A constraints-Led Approach (1st ed.). https://doi.org/10.1016/b0-12-370870-2/00169-4

Danilo Arruda

Danilo Arruda

Profissional da Educação Física formado pela PUC-PR. Especialista em Treinamento Desportivo pela UNIP/CEFIT e Mestrando em Kinesiology and Exercise Science - Aprendizagem e Controle Motor pela Universidade do Wyoming (EUA), onde também atua como Assistente de Ensino para alunos da graduação. Técnico de voleibol desde 2010 habilitado pela Confederação Brasileira de Voleibol - Nível 3. Tem como principal área de interesse a Aprendizagem e Controle Motor, desvendando os meios e métodos mais eficientes para a performance e ensino do esporte/movimento.

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