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10 coisas que um técnico esportivo NÃO DEVE fazer – Parte 4

Esse é a nossa quarta postagem sobre 10 coisas que os técnicos não devem fazer. Se você não viu as outras matérias de uma olhada nelas (Parte 1, Parte 2, Parte 3).

Na matéria de hoje abordamos o tema da autonomia e da mera reprodução de exercícios encontrados na internet.

7- Não dar autonomia para os atletas

Muitas vezes o técnico esportivo, na esperança de fornecer a melhor prática para seus alunos, tira toda a autonomia do atleta, falando sempre o que fazer, o que não fazer, como fazer etc. Porém a autonomia é uma necessidade básica humana, onde se sentimos responsáveis pelo o que fazemos, mostrando um comportamento diferente de quando seguimos uma norma por exemplo (1).

Há muitas evidências mostrando que atitudes e posturas que estimulem a autonomia nos atletas é mais eficiente. Onde opções são fornecidas para os atletas e eles podem escolher, por exemplo, quando receber feedback, qual exercício realizar, liberdade na escolha de técnicas entre outras (2). De maneira geral quando a autonomia é promovida, essa atitude melhora a performance e aprendizagem (3).

Hooyman e colegas (2014) realizaram um estudo com a aprendizagem de uma tarefa de precisão (lançar uma bola de tenis em um alvo). A cada 10 repetições do movimento um vídeo era mostrado com instruções sobre a tarefa. Foram divididos três grupos de acordo com o tipo de instrução recebida, podendo ser: dando autonomia, controlador (sem autonomia) e instruções neutras. Por exemplo o início da instrução promovendo autonomia começava da seguinte maneira: “Aqui é sua oportunidade para aprender um lançamento”. Já para o outro grupo as instruções impondo controle começava da seguinte maneira: “Seu trabalho hoje será aprender um lançamento”. E por último as instruções neutras: “Hoje você estará praticando um lançamento”.

O resultado quanto a performance (precisão) foi significantemente superior para o grupo “autonomia”. Adicionalmente, o grupo “controlador” teve o maior número de erros. Além do melhor desempenho, o grupo com mais autonomia também teve melhores resultados nos fatores psicológicos como percepção de escolha, auto-eficiência entre outros (4).

Ou seja, o treino deve ser centrado no atleta, dando autonomia e sensação de responsabilidade. Muitas vezes a orientação pode ser a mesma, mas dependendo do jeito que é passado essa informação, pode gerar uma sensação de autonomia ou uma sensação de ser controlado. Sendo assim, os técnicos devem ter consciência quanto ao tipo de instrução e condução geral do treinamento, onde é possível gerar atletas autônomos e mais motivados à aprender, ou gerar atletas que se sentem controlados, com motivação diminuída e com o desempenho pouco otimizado.

8- Apenas reproduzidr conteudo encontrado na internet

Uma das vantagens do nosso século é o acesso a informação. Podemos ir no Google e digitar “Exercícios para melhorar o chute no futebol” e vão aparecer milhares de conteúdos, o que é algo fantástico e uma ótima ferramenta, porém o risco está presente quando se toma a decisão de apenas reproduzir esses mesmos exercícios. Há vários exercícios realizados com atletas profissionais, que impõem demandas relacionadas ao esporte profissional. E muitas vezes os técnicos simplesmente reproduzem esses exercícios em suas escolinhas com crianças de 11 anos.

Ou seja, as características do praticante e também da modalidade são diferentes. Obviamente, os exercícios podem e devem ser adaptados. Mas um fator determinante é o risco físico do exercício, como por exemplo um exercício para a aplicação do “mortal”, onde esse exercício deverá ser adaptado visando o aumento da segurança (5).

Caso o exercício envolva demandas fisiológicas elevadas, como por exemplo no futsal onde há vários exercícios de intensidade alta, talvez iniciantes não consigam aplicar a mesma intensidade no exercício, e caso não seja modificado ocorrerá perda da eficiência. No mesmo exemplo, podemos citar também a demanda tática e cognitiva. O futsal de alto nível exige elevado conhecimento tático, que levam anos para serem desenvolvidos, ou seja, é praticamente impossível reproduzir o mesmo exercício de uma equipe de alto nível para uma equipe iniciante (6). E caso isso seja feito, não será eficiente.

Os técnicos devem ter a sensibilidade para adaptar exercícios conforme o seu público, garantindo uma otimização do treinamento, distribuindo os tipos de exercícios conforme a necessidade das modalidades e atleta (6–8). Pra isso acontecer se faz necessário o estudo quanto as características da modalidade, desenvolvimento motor, psicológico etc.

Essa foi a nossa a quarta matéria, ainda temos mais uma por vir, continue conosco e não perca nossas próximas publicações.

Não deixa ninguém te enganar.

Referências

1.          Schmidt RA, Lee TD, Winstein CJ, Wulf G, Zelasznik HN. Motor Control and Learning. 6th ed. Human Kinetics; 2019. 532 p.

2.          Wulf G, Lewthwaite R, Cardozo P, Chiviacowsky S. Triple play: Additive contributions of enhanced expectancies, autonomy support, and external attentional focus to motor learning. Q J Exp Psychol. 2017;(January):1–9.

3.          Lewthwaite R, Wulf G. Optimizing motivation and attention for motor performance and learning. Curr Opin Psychol [Internet]. 2017;16(March):38–42. Available from: http://dx.doi.org/10.1016/j.copsyc.2017.04.005

4.          Hooyman A, Wulf G, Lewthwaite R. Impacts of autonomy-supportive versus controlling instructional language on motor learning. Hum Mov Sci [Internet]. 2014;36:190–8. Available from: http://dx.doi.org/10.1016/j.humov.2014.04.005

5.          Tani G, Corrêa UC. Aprendizagem Motora e o ensino dos esportes. 1st ed. São Paulo: Blucher; 2016. 384 p.

6.          Serrano J, Shahidian S, Sampaio J, Leite N. The importance of sports performance factors and training contents from the perspective of futsal coaches. J Hum Kinet. 2013;38(1):151–60.

7.          Leite N, Coelho E, Sampaio J. Assessing the importance given by basketball coaches to training contents. J Hum Kinet. 2011;30(1):123–33.

8.          Santos L, Fernández-Río J, Almansba R, Sterkowicz S, Callan M. Perceptions of top-level judo coaches on training and performance. Int J Sport Sci Coach. 2015;10(1):145–58.

Danilo Arruda

Danilo Arruda

Doutorando em Kinesiology pela Universidade de Minnesota (EUA) com ênfase em Aprendizagem e Controle Motor. Mestre em Kinesiology pela Universidade do Wyoming (EUA). Bacharelado em educação física formado pela PUC-PR. Especialista em Treinamento Desportivo pela UNIP/CEFIT. Técnico de voleibol desde 2010 habilitado pela Confederação Brasileira de Voleibol - Nível 3. Tem como principal área de interesse a Aprendizagem e Controle Motor, desvendando os meios e métodos mais eficientes para a performance e ensino do esporte.

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