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Variabilidade: Movimentos consistentes levam à resultados consistentes?

É comum obervar no âmbito esportivo a busca pela técnica ideal, assim como consistência nos movimentos. Existe uma crença de que movimentos consistentes levam a resultados consistentes. Porem, a variabilidade no movimento humano é algo inevitável, uma vez que o sistema motor humano é uma máquina muito complexa, com interação entre diversas variáveis (1,2).

A variação ou “irregularidade” nos movimentos foi por muitos anos vista como algo negativo, sendo tratada como erro ou falha controle de movimento Porém, o estudo da variabilidade é complexo, e com evoluções na análise de dados e tecnologia de avaliação, estudos recentes vêm tratando a variabilidade diferente, sendo muitas vezes relacionada como funcional, tendo ainda correlação positiva com performance (3).

O que os estudos mostram?

Busquets e colaboradores (2016) realizaram um estudo com 113 atletas masculinos de ginástica artística. Os autores dividiram os atletas em cinco grupos de acordo com a experiência. O grupo menos experiente possuia em média 3.6 anos de experiência e o mais experiente tinha em média 14.2 anos de experiência. Foi avaliado a variabilidade durante três repetições de um movimento de rotação na barra fixa. Foi verificado que menos variabilidade na coordenação de braços com o tronco é associado com experiência, porém a maioria dos outros componentes o resultado foi o contrário, como por exemplo o ângulo no ombro e quadril, onde maior variabilidade foi correlacionado com os atletas mais experientes, segundo os autores essa variabilidade fornece aos atletas uma flexibilidade, facilitando a conexão com outros movimentos e a saída do aparelho por exemplo (4).

Barris e demais pesquisadores (2014) encontraram resultados interessantes um estudo com mergulho do trampolim. Os atletas foram acompanhados por 12 semanas, e os autores puderam concluir que a variabilidade aumentou ao final das semanas de treinamento. A performance técnica também aumentou como pode se obesrvar nas notas dos jurados. Ou seja, conforme os atletas foram melhorando a variabilidade foi aumentando, mais uma vez a variabilidade foi funcional, onde o organismo pôde explorar o ambiente ficando mais flexível aos possíveis ajustes (5).

Glanzer e colaboradores (2019) avaliaravam a variabilidade entre lançadores de beisebol. Neste estudo os autores encontraram que consistência nos padrões de lançamentos levou a mais precisão no movimento. Porém, um dos fatores de variabilidade no ombro, se correlacionou positivamente com a precisão no lançamento, no movimento de abdução horizontal, ou seja, o movimento realizado junto com a rotação do tronco (6).

Stannard e Robins (2013) avaliaram jogadores de basquete, onde os atletas foram divididos em três grupos conforme experiência. Os atletas tinham que realizar um movimento com a bola e arremessar a uma distância de 4.25m. Os atletas que tiveram mais variação no padrão de movimento foram os iniciantes e os avançados. Os atletas intermediários mostraram os menores valores de variabilidade (7).

A variabilidade é muito mais complexo do que imaginávamos

Existem diversos estudos mostrando que a variabilidade pode ser funcional. Há duas linhas de pensamento, uma que diz que a variabilidade diminui com a prática. Enquanto a outra teoria explica que a variabilidade se desevolve como um U. Ou seja, muita variabilidade (não funcional) quando se é inexperiente, então a variabilidade diminui e o movimento se estabiliza, e quando se é experiemente, a variabilidade (funcional) aumenta permitindo mais flexibilidade ao organismo (3,8).

Usar a média geral esconde as flutuações de variabilidade!

Infelizmente muitos estudos avaliam apenas a média dos movimentos levando em consideração vários atletas, e isso pode esconder vários aspectos fundamentais do movimento como a variabilidade. Há muitas evidências dizendo que a variabilidade pode ser funcional, e que em a variabilidade pode mudar de acordo com a articulação, limitando em alguns pontos, mas dando flexibilidade em outros. O estudo da variabilidade no movimento humano vai ainda além, levando em consideração movimentos cíclicos como a caminhada e corrida, onde a variabilidade pode diminuir a chance de lesão por overuse (repetições excessivas do mesmo movimento que causa lesão a longo prazo)(9) , assim como o controle da postura (10). Mas isso é assunto pra outra matéria!

Por hora, não deixa ninguém te enganar e saiba que consistência em movimentos não quer dizer consistência em resultados, as vezes pode ser o contrário!

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Referências

1.        Preatoni E, Hamill J, Harrison AJ, Hayes K, van Emmerik REA, Wilson C, et al. Movement variability and skills monitoring in sports. Sport Biomech. 2013;12(2):69–92.

2.        Davids K, Bennet S, Newell K. Movement System Variability. Human Kinetics; 2006. 364 p.

3.        Sternad D. It’s not (only) the mean that matters: variability, noise and exploration in skill learning. Curr Opin Behav Sci [Internet]. 2018;20:183–95. Available from: http://dx.doi.org/10.1016/j.cobeha.2018.01.004

4.        Busquets A, Marina M, Davids K, Angulo-Barroso R. Differing roles of functional movement variability as experience increases in gymnastics. J Sport Sci Med. 2016;15(2):268–76.

5.        Barris S, Farrow D, Davids K. Increasing functional variability in the preparatory phase of the takeoff improves elite springboard diving performance. Res Q Exerc Sport. 2014;85(1):97–106.

6.        Glanzer JA, Diffendaffer AZ, Slowik JS, Drogosz M, Lo NJ, Fleisig GS. The relationship between variability in baseball pitching kinematics and consistency in pitch location. Sport Biomech [Internet]. 2019;00(00):1–8. Available from: https://doi.org/10.1080/14763141.2019.1642378

7.        Stannard R, Robins M. THE EFFECT OF EXPERTISE ON COORDINATION VARIABILITY DURING A DISCRETE MULTI-ARTICULAR ACTION. In: 18th annual Congress of the EUROPEAN COLLEGE OF SPORT SCIENCE [Internet]. 2013. p. 47–8. Available from: http://dx.doi.org/10.1016/j.biotechadv.2010.07.003%0Ahttp://dx.doi.org/10.1016/j.scitotenv.2016.06.080%0Ahttp://dx.doi.org/10.1016/j.bbapap.2013.06.007%0Ahttps://www.frontiersin.org/article/10.3389/fmicb.2018.02309/full%0Ahttp://dx.doi.org/10.1007/s13762-

8.        Serrien B, Ooijen J, Goossens M, Baeyens J-P. A Motion Analysis in the Volleyball Spike – Part 2: Coordination and Performance Variability. Int J Hum Mov Sport Sci. 2016;4(4):83–90.

9.        Stergiou N, Decker LM. Human movement variability, nonlinear dynamics, and pathology: Is there a connection? Hum Mov Sci. 2011;30(5):869–88.

10.      Beauchet O, Allali G, Berrut G, Dubost V. Is low lower-limb kinematic variability always an index of stability? Gait Posture. 2007;26(2):327–8.

Danilo Arruda

Danilo Arruda

Doutorando em Kinesiology pela Universidade de Minnesota (EUA) com ênfase em Aprendizagem e Controle Motor. Mestre em Kinesiology pela Universidade do Wyoming (EUA). Bacharelado em educação física formado pela PUC-PR. Especialista em Treinamento Desportivo pela UNIP/CEFIT. Técnico de voleibol desde 2010 habilitado pela Confederação Brasileira de Voleibol - Nível 3. Tem como principal área de interesse a Aprendizagem e Controle Motor, desvendando os meios e métodos mais eficientes para a performance e ensino do esporte.

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