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10 coisas que um técnico esportivo NÃO DEVE fazer – Parte 1

Essa é a primeira de uma série de 5 posts trazendo 10 coisas que os técnicos NÂO devem fazer para treinar seus atletas. Abordaremos fatores relacionados ao treinamento desportivo, aprendizagem motora, fisiologia, psicologia entre outros. Se liga nas matérias e não perca nenhum das dicas.

Treinar diferente do jogo

Uma coisa excelente para ARRUINAR todo o processo de treinamento, é ter as sessões de treino differentes das características encontradas na modalidade esportiva. Seria como treinar corrida para melhorar no voleibol. Um dos princípios do treinamento desportivo é a especificidade, ou seja, quanto mais específico o treino maior será a transferência para a competição (1,2). Se a modalidade é de potência, o treino deve ser baseado na potência. Se a modalidade envolve manuseio de bola, o treino deverá ser baseado no manuseio de bola, se a modalidade involve tomada de decisão, o treino deverá conter tomada de decisão e assim por diante (3).

Há meios de adaptar o treino para alcançar diversos objetivos sem perder características básicas da modalidade (Veja nossa matéria sobre métodos de treino clicando AQUI). Em alguns momentos exercícios acessórios podem ser utilizados, mas estes são acessórios, não são a base da modalidade esportiva (4). As adaptações do jogo vêm se mostrando uma alternativa excelente para o treinamento, são os jogos reduzidos e adaptados, esses métodos de treino são mais eficientes que os tradicionais, além de promoverem adaptações técnicas, fisiológicas, táticas entre outras (5).

Muitas vezes na esperança de facilitar o gesto motor, os técnicos mudam totalmente a configuração da habilidade, perdendo muitas vezes componentes fundamentais do movimento, em geral a regra para saber se vale a pena “quebrar” o gesto é o seguinte, se os componentes do movimento são interligados no espaço e tempo, onde um componente determina o início e posição do outro, movimento não deve ser realizado em partes, caso fragmente-se o movimento não ocorrerá transferência, pois os componentes de coordenação entre cada parte do movimento, determinam a execução deste movimento. Como por exemplo um chute no futebol, onde as passadas, balanceio dos braços, coordenação de membros estão totalmente interligados um ao outro (6). Estratégias como a utilização de bolas mais leves, reduzir a velocidade e força relativa do movimento podem ajudar na aquisição de movimentos complexos (7). Vale salientar, que a utilização do método de fracionar o gesto motor pode ser utilizado, mas ele é um exercício acessório, e recomenda-se sempre vincular o exercício parcial com o gesto inteiro, por example executando exercícios alternados, cinco repetições do movimento parcial e cinco repetições do movimento global, dessa maneira ficará claro para o atleta o link entre os dois gestos (8).

Treinar na zona de conforto

Assim como em qualquer aprendizagem, o cérebro se adapta quando exigido, ou seja, não estar na zona de conforto é algo básico pensando em adaptação e evolução (9). Sendo assim, o técnico deve ter a sensibilidade de conduzir os treinos e exercícios, de maneira que sejam desafiantes o suficiente para gerar adaptação. As atividades devem ser um pouco acima do que o atleta já consegue executar, porém se for muito acima, também não haverá evolução (10).

Guadagnoli M, Lindquist K. Challenge Point Framework and Efficient Learning of Golf. Int J Sports Sci Coach. 2007;2(1_suppl):185–97.

Guadagnoli e Lindquist (2007) testaram diferentes níveis de exercício para a aprendizagem do golfe, e os resultados mostraram que exercícios muito fáceis ou muito difíceis geraram menos aprendizagem. Os autores determinaram ainda duas zonas ideais de treinamento. Para iniciantes (A) o treino deve ser relativamente mais fácil que para atletas intermediários (B). Na figura acima, quanto mais alto e mais a direita mais difícil. Sendo assim, é possível verificar a zona ótima de aprendizagem. O eixo da esquerda (altura) representa a performance durante o treino, ou seja o treino mais fácil gera uma performance melhor durante o treino, porém menos aprendizagem.

Ficando claro, a importância de lidar com a frustração de errar durante o treino, porém uma certa quantidade de erros indica a capacidade de aprender desses erros e se adaptar (11). Lee e colaboradores (2016) realizaram um estudo com 5 experimentos, e a conclusão geral é que mais erros durante o treino, gerou uma aprendizagem melhor do que menos erros (12). Outros estudos encontraram os mesmos resultados (13–16)

Há alguns meios interessantes de controlar essa zona ótima de aprendizagem. Um deles é simplesmente pergutando para os atletas o nível de dificuldade de cada exercício, utilizando escalas (0 a 10 etc.), apesar de simples essas escalas se relacionam bem com frequência cardíaca além de outros marcadores fisiológicos (17–19). Outro método é verificar a proporção de erros em relação aos acertos, se o atleta acerta todas as ações, isso quer dizer que o exercício está fácil demais, se o atleta erra todas as ações isso quer dizer que o está dificíil demais (12).

Por hoje é só pessoal! Fique ligado nos próximos posts, se você gostou, ou não gostou da matéria, comenta aí que é sempre legal bater um papo sobre assuntos relacionados a ciência e treinamento! E finalmente, não deixe ninguém te enganar.

Referências

1.          Bompa TO. Periodization: theory and methodology of training. 4th ed. Champaign, Ill. : Human Kinetics; 1999. 25–35 p.

2.          Gomes AC. Treinamento Desportivo. 2nd ed. Porto Alegre: Artmed; 2009. 276 p.

3.          Gamble P. Implications and Applications of Training Specificity for. Strenght Cond J. 2006;28(3):54–8.

4.          Schmidt RA, Lee TD, Winstein CJ, Wulf G, Zelasznik HN. Motor Control and Learning. 6th ed. Human Kinetics; 2019. 532 p.

5.          Halouani J, Chtourou H, Gabbett T, Chaouachi A, Chamari K. SMALL-SIDED GAMES IN TEAM SPORTS TRAINING: ABRIEF REVIEW. J Strength Cond Res. 2014;28(12):3594–618.

6.          Magill RA. Aprendizagem e Controle Motor:Conceitos e aplicações. 8th ed. São Paulo: Artmed; 2011. 568 p.

7.          Coker CA. Motor learning and control for practitioners. 4th ed. New York: Routledge; 2018. 370 p.

8.          Fontana FE, Furtado Jr. O, Mazzardo O, Gallagher JD. Whole and Part Practice: a Meta-Analysis. Percept Mot Ski [Internet]. 2009;109(2):517–30. Available from: http://search.ebscohost.com/login.aspx?direct=true&db=sph&AN=45703234&site=ehost-live

9.          Ericsson KA, Krampe RT, Tesch-Römer C. The role of deliberate practice in the acquisition of expert performance. Psychol Rev [Internet]. 1993;100(3):363–406. Available from: http://doi.apa.org/getdoi.cfm?doi=10.1037/0033-295X.100.3.363

10.        Guadagnoli M, Lindquist K. Challenge Point Framework and Efficient Learning of Golf. Int J Sports Sci Coach. 2007;2(1_suppl):185–97.

11.        Parmar PN, Patton JL. Models of Motor Learning Generalization. Proc Annu Int Conf IEEE Eng Med Biol Soc EMBS. 2018;2018-July:4714–9.

12.        Lee TD, Eliasz KL, Gonzalez D, Alguire K, Ding K, Dhaliwal C. On the Role of Error in Motor Learning. J Mot Behav. 2016;48(2):99–115.

13.        Bauer R, Vukelić M, Gharabaghi A. What is the optimal task difficulty for reinforcement learning of brain self-regulation? Clin Neurophysiol. 2016;127(9):3033–41.

14.        Andrieux M, Boutin A, Thon B. Self-control of task difficulty during early practice promotes motor skill learning. J Mot Behav. 2016;48(1):57–65.

15.        Sanli EA, Lee TD. Nominal and functional task difficulty in skill acquisition: Effects on performance in two tests of transfer. Hum Mov Sci [Internet]. 2015;41:218–29. Available from: http://dx.doi.org/10.1016/j.humov.2015.03.006

16.        Akizuki K, Ohashi Y. Measurement of functional task difficulty during motor learning: What level of difficulty corresponds to the optimal challenge point? Hum Mov Sci [Internet]. 2015;43:107–17. Available from: http://dx.doi.org/10.1016/j.humov.2015.07.007

17.        Minganti C, Capranica L. Validity of session RPE method. Strength Cond. 2010;24(11):3063–8.

18.        McLaren SJ, Macpherson TW, Coutts AJ, Hurst C, Spears IR, Weston M. The Relationships Between Internal and External Measures of Training Load and Intensity in Team Sports: A Meta-Analysis. Sport Med [Internet]. 2018;48(3):641–58. Available from: https://doi.org/10.1007/s40279-017-0830-z

19.        Harrison CB, Kilding AE, Gill ND, Kinugasa T. Small-sided games for young athletes: is game specificity influential? J Sports Sci. 2014;32(4):336–44.

Danilo Arruda

Danilo Arruda

Doutorando em Kinesiology pela Universidade de Minnesota (EUA) com ênfase em Aprendizagem e Controle Motor. Mestre em Kinesiology pela Universidade do Wyoming (EUA). Bacharelado em educação física formado pela PUC-PR. Especialista em Treinamento Desportivo pela UNIP/CEFIT. Técnico de voleibol desde 2010 habilitado pela Confederação Brasileira de Voleibol - Nível 3. Tem como principal área de interesse a Aprendizagem e Controle Motor, desvendando os meios e métodos mais eficientes para a performance e ensino do esporte.

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