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Não seja um pai chato – Parte 2

Essa é a segunda matéria discutindo o comportamento dos pais de atletas. Se você não ainda não leu a primeira matéria clique AQUI.

Na matéria passada estávamos discutindo um estudo (1) onde as atletas relataram os comportamentos que gostam e que não gostam em relação a atitude de seus pais. Vamos continuar no mesmo estudo, onde as meninas comentaram sobre os comportamentos após as competições.

Após a competição

Após a competição as atletas relataram que preferem quando os pais dão feedback positivo e realístico sobre os jogos. Comentaram também se sentiam bem quando um pai de outra atletas as elogiava. As atletas comentaram que quando as críticas ou apontamento de erros é feita, deve ser feita em particular, não perante as colegas de time etc. As atletas também responderam que apreciam a honestidade, por exemplo, falando a verdade após um jogo ruim, ao invés de “mentir” dizendo que o desempenho foi bom.

Os atletas conseguem diferenciar quando o feedback é real, ou seja, mentir sobre o desempenho ou falar que foi um bom jogo, quando na verdade não foi, é uma péssima estratégia. Ao invés, os pais devem ser realistas, caso um jogo tenha sido ruim, tudo bem comentar isso com o filho. Os pais devem usar esse momento pra ensinar os filhos a lidar com a frustração e a não desistirem. Explicando que eles devem continuar se esforçando para que o próximo jogo seja melhor, e que não adianta ficar se lamentando pelo mal desempenho, mas que treinar melhor, se esforçar mais pode fazer a diferença.

O que os técnicos querem

Alguns pesquisadores se dedicaram a pesquisar qual a percepção dos técnicos em relação aos pais (Gould and colleagues, 2008, 2016).

Gould e colegas (2016) conversaram com 14 dos mais experientes e vitoriosos técnicos de tênis (Sub-10) dos Estados Unidos. Os técnicos levantaram 7 desafios de trabalhar com esses pais.

  • Não entender as etapas de desenvolvimento: Um exemplo claro, é o pai querer que o filho desempenho uma técnica, que esse atleta ainda não tem condições de realizar, seja por força ou pelo desenvolvimento natural. Além dos componentes físicos que precisam de uma maturação biológica pra serem melhorados. Muitas vezes os pais não entendem esse processo, e estimulam a criança a queimar etapas, o que compromete o desenvolvimento a longo prazo desse atleta. Há ainda modalidades que possuem regras específicas, limitando a utilização de certas técnicas, para que as crianças passem por todas as fases e não entrem em um processo de especialização precoce (veja mais aqui: https://scitraining.com.br/2020/01/17/10-coisas-que-um-tecnico-esportivo-nao-deve-fazer-parte-3/)
  • Expectativas não realistas e pressão: Muitas vezes os pais criam uma expectativa que não existe e acabam impondo muita pressão nos atletas. Sendo que nas categorias de base o mais importante é a criança aprender e se divertir. Quando a pressão começa muito cedo, as chances desse atleta desistir aumentam significativamente. Outro componente que é comum, é o pai que teve uma carreira esportiva e coloca suas próprias expectativas em cima da criança, muitas vezes em uma esperança de preencher as expectativas que esse pai tinha quando atleta.
  • Pais focando no resultado e na comparação: Para atletas iniciantes o foco jamais deve ser o resultado. Até por que o resultado depende de vários fatores, então os pais devem ficar mais tranquilos e deixarem as crianças se divertirem, mas ao mesmo tempo ensinando a importância do treinamento e esforço para que o bom resultado ocorra. Assim como, a comparação é péssima, principalmente na iniciação esportiva, pois cada criança tem condições únicas, uns irão se desenvolver mais rápido, outros mais lento e assim por diante. Muitas vezes essa comparação pode fazer que esse atleta deixe de treinar, ou que perca a motivação.
  • Hiperenvolvimento dos pais no esporte do filho: NÃO SEJA UM PAI CHATO! Deixa a criança aproveitar o esporte dela, assim como respeitar as decisões do técnico, etc. Há pais que vêem todos os treinos dos filhos, vão para TODOS os campeonatos e até levam o filho no banheiro se precisar. Isso gera uma hiperdependência que a longo prazo vai comprometer o desenvolviento esportivo.
  • Comunicação ineficiente entre criança e pai: Conversar com os atletas sobre o que está acontecendo é fundamental, até para que o pai entenda melhor todo o processo e possa ajudar melhor. Sem falar na questão logística, conversando sobre quando é o próximo jogo, o que precisa levar, que horas, como funciona a inscrição, etc.
  • Falta de entendimento da modalidade/categoria pelo pai: Muitas vezes os pais cobram dos filhos coisas que na modalidade em questão nem podem ser feitas. Por exemplo no caso das modalidades coletivas, em categorias mais novas há algumas regras que fazem substuições obrigatórias, para fazer com que todas as crianças inscritas possam jogar o campeonato. Quando o pai não entende esses regras, ele pode querer reclamar com o filho ou técnico por motivos falta de entendimento dos mecanismos da competição.
  • Falta de comprometimento com a modalidade do filho: Esses são aqueles pais que nunca foram assistir um jogo, e que muitas vezes colocam as crianças no esporte apenas para ter um tempo livre longe dos filhos. A criança ficará frustrada e pode perder a motivação pro esporte de maneira geral, pois o atleta percebe que o pai simplesmente não liga para o que ele está fazendo. Muitas vezes, esses pais destroem uma possível carreira brilhante de um atleta, por exemplo o pai tem que dar suporte levando para os jogos, motivando, etc. Quando o pai simplesmente não faz isso, as chances desse atleta desistir são bem maiores.

Conclusão

Nessa matéria trouxemos alguns estudos que refletem o desafio de ser pai de atleta! A grande mensagem é que o comportamento ideal é um comportamento moderado, ou seja, sendo presente quando necessário, mas deixando o atleta por sí próprio em outros momentos.

Moral da história, não deixe ninguém te enganar e siga SciTraining.

Referências

1.         Knight CJ, Neely KC, Holt NL. Parental behaviors in team sports: How do female athletes want parents to behave? Journal of Applied Sport Psychology. 2011;23(1):76–92.

2.         Tamminen KA, Poucher ZA, Povilaitis V. The car ride home: An interpretive examination of parent-athlete sport conversations. Sport, Exercise, and Performance Psychology. 2017;6(4):325–39.

3.         Gould D, Lauer L, Rolo C, Jannes C, Pennisi N. The role of parents in tennis success: Focus group interviews with junior coaches. Sport Psychologist. 2008;22(1):18–37.

4.         Gould D, Pierce S, Wright EM, Lauer L, Nalepa J. Examining expert coaches’ views of parent roles in 10-and-under tennis. Sport, Exercise, and Performance Psychology. 2016;5(2):89–106.

Danilo Arruda

Danilo Arruda

Doutorando em Kinesiology pela Universidade de Minnesota (EUA) com ênfase em Aprendizagem e Controle Motor. Mestre em Kinesiology pela Universidade do Wyoming (EUA). Bacharelado em educação física formado pela PUC-PR. Especialista em Treinamento Desportivo pela UNIP/CEFIT. Técnico de voleibol desde 2010 habilitado pela Confederação Brasileira de Voleibol - Nível 3. Tem como principal área de interesse a Aprendizagem e Controle Motor, desvendando os meios e métodos mais eficientes para a performance e ensino do esporte.

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